29 de junho de 2010

Síncope.

Era junho e o frio fazia cócegas em meu coração. A eternidade estava pendurda nos ponteiros do relógio empoeirado e odiado da velha rodoviária. Eu mordia o cachecol e sentia minha saliva congelar na lã acizentada. Tanta poesia só poderia ser paixão. Apesar de nunca tê-lo tocado na vida o sentia dentro de mim, apertando meu peito por dentro como num misto de saudade e ansiedade angustiante. Puxava tanto que sentia nó na garganta, vontade de chorar, e contemplar solitariamente o frio sentado num banco isolado parecendo o garoto mais alternativo do mundo. O barulho do ônibus me acordara. Senti meu corpo enrijecer e minhas pernas trêmulas arrepiarem. Por um momento quis correr mas minhas pernas não teriam toda essa audácia. Me enxerguei com um pouco de vergonha de estar ali. Entrei no meu casulo imaginário maus meu coração num pulo me trouxe para fora e estatelou meus olhos em direção àquela porta. Desce um, outro, mais outro, mais um. Nada. Fechei meus olhos e contei até quatro. Quatro era o nosso número. Quatro amigos em comum, quatro chances perdidas de nos encontrarmos, quatro olhares encontrados, quatro tipos de ansiedade. Quatro segundos. Olhos abertos. Eu não podia acreditar. Era ele. Óculos quadrados, cabelos encaracolados, barba por fazer, jaqueta de couro preta, boina verde-musgo, sorriso esbranquiçado de canto de boca, cachecol vermelho. Quarta vez que o esperava. Vi-o descer, buscar o celular dentro do bolso da jaqueta e encontrá-lo no da calça. Um passo, dois, três e quatro. Boa noite - balbuciara. Passou por mim. Pelo menos conseguira um boa noite. Sim, talvez nosso número fosse o cinco e não o quatro. Da próxima vez, tomara que ele me note. Vou esperar por aqui, mais cinco segundos.

Um comentário:

  1. Eu gosto do acaso. Odeio a espera. Esperar definitivamente não é meu forte.

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