27 de dezembro de 2010

Pra quebrar a rotina.

Levantava pela manhã, enxaguava o rosto, escovava os dentes, vestia a roupa, não comia de manhã, assistia cinco minutos do jornal matinal, ia para o carro, trabalho, almoço pelo centro, seis horas para casa, banho fresco, um pouco de internet, novela e cama. Tirando os feriados e dias santos essa fora sua rotina por pelo menos seis anos, que eu me lembre. Não reclamava da vida, tinha alguns amigos, poucos, mas tinha. Ia para o salão em eventos especiais, casamentos e só. Num desses dias acordou sentindo falta. Sentiu falta de sentir falta e um amor, talvez uma paixão, alguém assim que pudesse quebrar sua rotina, pelo menos um colo para poder deitar depois das seis, descansando o dia de trabalho com um bom cafuné. Aquela semana foi de falta. Decidiu contar para um amigo, não sabia se era boa decisão, mas contou enquanto dirigia , era final de ano, momento mais reflexivo e de sonhos de Papai-Noel. Buzina forte e bow. Pronto, era tudo o que precisava para um final de ano. Seu carro batido por culpa das distrações adolescentes dos sonhos de paixão que tentam destruir o rumo tão correto da rotina. É. Naquele momento seis anos seguidos foram interrompidos. O amigo assistia boquiaberto a cena cinematográfica do deus grego descendo do carro em câmera lenta, sem aliança, e com sotaque de deixar qualquer estômago com mil borboletas. Ninguém poderia contar com uma surpresa daquelas que traria muito mais que um e-mail trocado, ou um convite pra jantar. Talvez um presente de Natal, como sugeriria ele numa cantada barata. Talvez o fiim da rotina. Pra sempre. Até enquanto o encanto durar.

17 de novembro de 2010

Pisca-pisca.


Creydisson não gostava do Natal. Nunca conhecera Papai-Noel. Nem papai. Gostava sim de ver as luzinhas piscando nas casas, sentava nas noites de dezembro pelas ruas movimentadas e notava a felicidade das pessoas. Ele adorava sua mamãe, mas sabia que não poderia contar com ela na noite do natal, era ela quem cozinhava pras pessoas chiques. Não é que não estava acostumado, passava a maior parte do tempo longe dela, e conseguia muito bem, mas é que o natal trazia aquele sentimento de não-sei-o-que no estômago e uma vontade de chorar. Uma vez perguntaram na escolhinha o que ele gostaria de receber de presente no natal. Tinha tanta coisa que não sabia muito bem o que escolher, mas pediu um papai. Como os professores disseram que pra ganhar presente de papai-noel tinha que ser bonzinho durante o ano ele acreditou que não tinha sido tão bom assim, só um pouqinho, porque ganhou um pacotinho com umas balas, um bom-bom e desenhos de natal, mas papai mesmo, nada. Aquela noite, Creydisson desacreditou das coisas. Sentou na beira da calçada, com um pouco de frio, só de shorts, e começou a chorar. As pessoas que passavam ficavam olhando e sentindo pena. Mas Creydisson continuou lá, até adormecer, ao som de noite-feliz.

Dor.

Enquanto recebia a sentença de prisão, a mãe lembrava da inocência dos tempos de menino do acusado.

Esperando.

Deitou desconfortantemente estreiando aquela cama de prisão. Menos um dia.

Bico.

De todos os trabalhos que tivera, badalar um sino e entregar balinhas pras crianças, era, de longe, o mais digno.

Paz Condicionada.

Puxou no baseado a tensão do dia estressante. Soltou na fumaça o alívio e a coragem pra um outro dia.

16 de novembro de 2010

Profundamente.


Tinha um grande problema: Era muito intenso. Tudo o que vivia, o fazia de forma profunda. Emoções, pensamentos, sentimentos. Os amigos pediam que ele vivesse com calma, mas como? Não sabia fingir que não estava pensando ou sentindo. Muitas vezes sofria com isso, nem todo mundo podia ao menos entender que alguém podia entregar-se tanto assim. Um dia parou de sofrer, decidiu não ligar para o que os outros diriam. Quem quisesse se envolver com ele teria que entrar no jogo. Abraçar como num corpo só, beijar como quem sente por inteiro a outra pessoa, olhar com lágrimas nos olhos e amar até a morte. No que as pessoas viam apenas algo comum ele conseguia enxergar os detalhes mais impressionantes. Parecia ter todos os sentidos agindo concomitantemente. Sentia o gosto dos sons, e podia jurar que sabia a cor exata de um cheiro bem docinho. Mergulhava no mundo e permitia que o mundo mergulhasse nele numa troca intensa de experiências. Quando percebeu que era realmente feliz, ninguém mais o infernizou, todos deixaram que ele seguisse intensamente vivendo, profundamente amando, e exageradamente sentindo. Morreu mergulhado num mundo de emoções, na certidão de óbito constava: Morte por Prazer.

12 de novembro de 2010

Menina da Lua.


Ela guardava a luz dentro de uma caixinha com estampa de joaninhas. Vez em quando uma pessoa passava na rua e lá ia ela espionar a caixinha só pra aguçar a curiosidade dos errantes. Só deixava a caixinha no chão pra balançar no balanço da praça. Quando a questionavam sobre a misteriosa caixinha ela dizia que era a luz que estava guardada e que só ela poderia cuidar bem dela. As pessoas achavam estranho, e questionavam se a pobre menina dos cabelos cacheados  não teria responsáveis que a salvassem de uma possível insanidade. O fato era que ela era diferente das demais crianças. Quando sorria ninguém sabia bem ao certo porque sorria, mas sorria para as coisas mais improváveis. É que ninguém via o que ela via, só ensergavam que havia um brilho diferente naquele olhar. A caixinha sempre em sua mão, em todas as ocasiões. Num dia triste, cinza, de dor no peito, encontraram a caixinha aberta e sozinha. Não viram mais menina, não viram mais o brilho. Desconfia-se que ela foi levada, foi levada pela luz que tanto protegia.

11 de novembro de 2010

Da fumaça do nosso ardor.


Ele me engolia. Nossos beijos estalavam e o som se confundia com nossos gemidos de prazer. Em algum momento não se percebia mais qual corpo era meu e qual era dele. E não queríamos dormir, tínhamos o mundo inteiro pela frente. Ele apertava meus braços abertos na cabeceira da cama e sussurrava em meu ouvido palavras de amor. Era a materialização carnal de um amor tão abstrato. Dois animais selvagens soltos deixando que seus instintos gritassem feito duas crianças famintas. Ele sabia o que fazer, parecia conhecer qualquer ponto do meu corpo, fosse o g ou qualquer outro do alfabeto de qualquer língua. O suor fazia nossos corpos brilharem  a luz das velas em torno a nós. A sintonia da natureza também nos impulsionava e simplesmente nos amávamos. E foram horas. E mais horas. Até tudo se apagar, com a ponta do meu último cigarro.

10 de novembro de 2010

Sorriso Matinal.

Aquele dia ele acordou mais cedo, naturalmente. Mais disposto. Expontaneamente feliz. Sentou na beirada da cama, alongou os braços para cima e espreguiçou. Olhou para seu corpo matinal e fresco. Pernas torneadas e peludas, samba-canção de seda, tórax robusto também com pelos, barba por fazer. Mirou os pés descalços e se lembrou do mar. Talvez uma viagem mais para o fim do ano que se aproxima. Pensou nos planos que tinha feito para o dia. Foi ao banheiro, enxaguou o rosto, escovou os dentes brancos e ficou fazendo caretas para si no espelho. Cheirou as mãos de sabonete e penteou o cabelo. Voltou ao quarto e deu um breve sorriso. Na cama, ele. Mudara todos seus planos de fim de ano, de ano que vem, de vida. Sorriu de novo. Deixou seu novo amor descansar da noite exaustiva de amor e foi correr pelo bosque para sentir o ar puro, o ar de novos ares.

9 de novembro de 2010

3 de novembro de 2010

Diferentes mesmas mãos.

As mesmas mãos que acariciaram aquele corpo agora terminam de sufocá-lo.

Um jeito de lavar a dor.

Secou as mãos úmidas e geladas na beira do avental enquanto os lábios tremiam anunciando um choro sofrido. Sentou devagar no canto da cadeira que se encontrava espremido naquela lavanderia. Segurou um soluço colocando o lenço na boca que acabara de desatar da cabeça. Sentia saudade. Saudade é bicho que dói - ouvira. Mas pior que sentir saudade era não poder matá-la. Quando pensava nisso sentia mais vontade de chorar. Levantou rapidamente quando pensou ouvir a patroa se aproximar. Não era, não sentou mais. Ficou enconstada esperando a centrífuga trabalhar. Enquanto a roupa girava ela pensava nas voltas da vida que a trouxeram ali, naquele cubículo apertadinho. Passou a mão pelo rosto enxugando a lágrima que descia sinuosa pelas rugas salientes dos seus sessenta e poucos. Sentiu-se sozinha. Ai, que dor. Disfarçou um pouco e sentou novamente adormecendo encostada na pilha de roupas sujas que a dor não a permitira ainda lavar.

2 de novembro de 2010

Decapitando.

Acordou ainda tonto, resultado da noite anterior. Sentiu no bolso a carteira estufada e logo tirou-a de lá. Os jeans estavam apertados demais e o calor da manhã de verão era mais um incômodo quando se tinha uma enxaqueca daquelas. Ainda deitado na cama dessarrumada, que combinava de um jeito demodé com o quarto, pensou. Pensou nos rostos da noite anterior. Tentou, não conseguia. Quem seriam? Será que eles saberiam quem ele era? Pensou então nos rostos conhecidos. Não conseguia. Tudo o que via eram os rostos estampados nas notas da sua carteira. Será que nunca mais veria os rostos das pessoas? Será que as pessoas ainda viam seu rosto? Tudo parecia tão reduzido. Os rostos, dinheiro. Os beijos, dinheiro. Os amassos, dinheiro. O sexo, dinheiro. O gozo, dinheiro. O dinheiro, vazio. Vagamente lembrou que tinha uma família. Sabia que tinha, mas não lembrava mais das faces. Um calor subiu do estômago e se materializou numa lágrima que dizia: "Fio, a mãe sempre vai tá aqui, se precisá, tá bão?" Engoliu seco. Olhou pro lado. A última coisa que viu foi uma caixa de um remédio tarja-preta. Adormeceu de vez, num esforço estupendo de quem tenta lembrar de algum rosto. Pelo menos um.

26 de outubro de 2010

Eroticamente Sonhando.

Quando acordou percebeu que não tinha sido tanto sonho assim...

Mecanismo de Compensação.

Pagava trinta reais por um papai-e-mamãe. Pelo menos podia chamar algo de familiar.

Não tão cedo

Enquanto a faca desenhava uma linha vermelha em seu pulso, pensava na brevidade da vida.

13 de outubro de 2010

Inconsequente.

Transou, transou, transou, transou.
Pensão, pensão, pensão,pensão.
Fim da grana, prisão.

30 de setembro de 2010

Brincadeira de Criança.

Sua brincadeira predileta era esconde-esconde. Há dois anos está desaparecido.

Luto

Enquanto eu descia a rua de barro, as pessoas me encaravam. A rua sem pavimentação, os olhares sem esperança, as casas sem zelo, as pessoas sem voz. A cada passo um aperto no coração. Uma criança chorava descabelada no colo de uma adolescente, talvez mãe. A natureza não era bonita naquele lugar, parecia triste também com a situação. O som de um rap nacional dizia: "Se Deus é por nós, quem será contra nós? Só os alemão, os playboy e as polícia memo". Engoli seco, mais um aperto no coração. Meu jeito de professor impunha um respeito que ainda os mais velhos nutriam. Continuei descendo a rua cheia de pessoas e tristeza até chegar na casa. Não sei se casa seria o melhor termo. Barraco, como eles o chamam. Madeira velha amontoada mobiliada por móveis comprados a prestações e sujeira. Muita sujeira. Na frente da casa, a bandeirinha da funerária. Na frente dos olhos a revolta e o inchaço. Não existiam lenços para enxugar as lágrimas que pingavam dos olhos abertos de pavor. Com os punhos fechados limpavam os olhos e engoliam o choro como quem engole coragem para vomitar revolta. No caixão, o rapaz de seus vinte o poucos anos. A mãe chega para mim e diz que minhas alunas, filhas dela também, estão dentro de casa, com vergonha de mim, por causa da casa feia, do irmão morto, e da aparência abatida. - Posso vê-las?, pergunto. Sem palavras a mãe acena que sim. Sigo por dentro do barraco de três cômodos e encontro as duas sentadas escondendo o rosto. Em poucas palavras digo que poderiam contar comigo. Sem me convencer de que poderia mesmo ajudar em algo, viro as costas e preciso partir. Com as pessoas ainda me olhando vou subindo o morro abandonado. Nas costas, o peso de poder só observar. Nos olhos, uma lágrima de indignação  e a vontade de gritar. Subo em silêncio até chegar no asfalto, onde no muro está escrito: "Por isso nós é bandido."

28 de setembro de 2010

Cheirinho de decepção.

Narizes. Ele amava narizes. Só não gostava daqueles peludos, os pelos não faziam uma boa imagem. Um nariz um dia o encantou. Era um narizinho arrebitado e sardentinho. Não sabia o que vira naquele nariz. Poderia ser um nariz a mais, já reparara em tantos outros, mas não. Aquele era o nariz. Pensou em presenteá-lo com os lenços mais bonitos do mundo, a fim de conquistá-lo. Lenço era coisa do passado, logo desistiu. Então pensou em buscar os cheiros mais cheirosos de toda a história, e buscou na internet o mais caro. Vinha da França e era, de longe, o melhor cheiro que algum nariz já pôde cheirar. Chegou todo tímido. Sem saber o que fazer pensou em nada dizer, apenas entregar o belo odor. Maldito amigo traseiro, de ansiedade soltou antes outro cheiro. Fim de uma relação que nem chegou a ter um cheiroso começo.

27 de setembro de 2010

Sem sorte, sem sorvete.

O velhinho sentado no meio-fio, pensava no que faria sem seu carrinho de picolé, ou no que os ladrõezinhos fariam com ele.

Quase real.

Quando ia chegar lá, acordou. Maldito sono leve.

21 de setembro de 2010

Historinha frustrada.

Sem ar, sem sentido, sem medo,
Com paixão.
Sem mácula, sem roupa, sem receios,
Com tesão.
Sem bis, sem chance, sem fim,
Confusão.

Miss Gali.

Ela sonhava com belos pintinhos, dos bem amarelinhos.
Só conseguia ovos chocos, e ciscava desesperada.

Dali pra frente

Suspirou deitado no colo dele.
- O que é isso que estou sentindo?
E ele, com olhar brilhante e sorriso penetrante disse:
- O que sente é o começo, só o começo...

16 de setembro de 2010

Retoricamente Falando.

Ele me disse que seríamos felizes para sempre.
Hoje, dando de mamar, sinto saudade do que ele dizia.

Substituição.

Neste outono as flores decidiram sentar-se ao meu lado. Sempre soube que elas o invejavam.

15 de setembro de 2010

No cais, de volta.

Ela trazia nos olhos marejados a saudade de meses que agora aliviava mordendo os lábios e apertando o avental florido.
Ele desrespeitava sua virilidade masculina tremendo os músculos do rosto quando não conseguiu conter o choro da alegria por vê-la de novo e quase se desequilibrava com a mala velha correndo a passos curtos naquele estaleiro.
Não havia mais multidão, ela sumira no abraço apertadoda saudade e no beijo que só o sol poente testemunhara ao som da música aliviante que os corações cantavam.

Tudo em Nada

- Não digo nada.
E nessa fala, disse tudo.

10 de setembro de 2010

O Encontro.

A lua sempre esperava o sol, todo dia, até amanhecer. Quando se encontraram, fizeram um eclipse gostoso.

9 de setembro de 2010

Estourando o Limite.

Riu da sandália de pobre da menina enquanto andava sobre a sandália chique nova que comprou em dez vezes, sem juros.

8 de setembro de 2010

Pra tapar a saudade.

Teu corpo, deitado na cama, parece usado.
O cheiro do sexo me lembra o que passou.
Fumando este cigarro, expiro saudade.
Do meu querido, único, e verdadeiro amor.

Desnível.

Carregando a sacola de pão da patroa, sentiu pena do filho que deixara na creche, sem comer.

Facinho

- Segura minha mão?
- Seguro.
- Ai, você é fácil demais.

Na base do troca.

Morria de medo da mãe flagrá-lo com o priminho.

Variando.

Enquanto esperava o ônibus pensava numa forma de burlar uma nova identidade.

Dózinha

Mirou aqueles olhinhos lacrimejantes e sentiu pena pelo fora que teria que dar.

Baile de Formatura

E terminando a dança, já sentiu saudade da sua velha turma de ensino médio.

7 de setembro de 2010

Abandonando.

Beijou a criança e, já de costas, pensou na dor do suicídio.

Deixando a canção falar.

Acho que Maria Rita expressa melhor tudo o que quero dizer. =)




Beijos, Que-ri-dos.

Guerra Linguística

As palavras empunhavam espadas.
As tonalidades vestiam-se perto da fronteira do grito.
Os adjetivos feriam vorazmente os pronomes pessoais.
O Rei era a ironia e soltava crases culpando a todos.
Por fim, feriram-se somente os corações.

Plágio

Amou daquela vez como se fosse a última. Ops. Já ouvi isso.

Tadinha.

Escondeu sua baixo auto-estima num poço de Ironias. Não era de se esperar menos. Filho de peixe.

Resposta, mesmo sem direitos. =)

Eles se casaram. De preto e preto. Para acabar com uma história, talvez? Não se sabe... Por que os dois não eram puros? Não se sabe... Entenderam o seguinte...Hominho com hominho, como não indica nenhum filminho. Não os de hoje.

6 de setembro de 2010

Lógico

Bonzinho só se fode. Ele tava na seca, era chato demais.

Aham

Escorregou acidentalmente numa casca de banana. Ele também riu, acidentalmente.

5 de setembro de 2010

Lições da Vovó

Temos a nossa visão de mundo. Vamos crescendo e nos munindo de informações que tomamos como pontos finais e ponto. Existem pessoas que matam e morrem por seus pontos de vista. Há quem diga que esta é a graça da vida. Eu não sei. Ando percebendo ultimamente que somos nada mais que mera história e que a única coisa que fizemos foi acreditar nas coisas que nos foram ditas e cá estamos nós, bem como as situações foram nos moldando. Me incomodava com minha avó querendo me ensinar coisas que julgava ultrapassadas mas ao mesmo tempo também me incomodava com alguém mais novo que discordasse de mim. Por isso, decidi. Decidi entender que sempre existirão pessoas pensando aqui e acolá, divergindo ou não de mim, mas o mais importante é que pensam, e trazem sua história. Eu carrego a minha. Decidi ignorar aquilo que os outros acham e evitar discussões ignorantes. A ausência de uma opinião explícita não implica na sua não-existência. Decidi ir mais fundo. Ao contrário do que pode estar pensando, não agirei tão passivamente assim. Decidi fazer. Fazer com que as coisas aconteçam do meu modo e mostrar, muito mais do que falar sobre essas mesmas coisas. Quem for bom mesmo de opinião, entenderá. Aí fiquem à vontade para criticar. Eu não vou criticar o que vocês fizerem. Não mesmo. Não posso me julgar melhor que ninguém, sempre existem dois pontos para se ver uma coisa, de cima, ou de baixo. E as coisas, essas permanecem no mesmo lugar. E olha, nesse silêncio agente, não é que aprendi que minha vó pode me ensinar muita coisa?

Eutanásia.

Desligou os aparelhos e pegou o envelope com os papéis da herança.

Com modos

Ele fazia o tipo simpático. Sempre sorria antes de apertar o gatilnho.

Breve História de Amor.

Nasceu, cresceu, entendeu.
Beijou, lambeu, amassou, comeu, trepou.

Morreu, de Amor.

Surpresa

Olhou bem no fundo daqueles olhos de ternura e disse com elegãncia:
-Filho da Puta.

Quase

- Isso, vai, to chegando lá... Eii.. não para, onde você vai?
- E isso é pra você pensar bem antes de chamar alguém de puta. Aqui não, querido.

Memória

Abriu o livro e encontrou a flor que já secara, assim como o que representava.

Preocupação

Lá do alto do prédio pensava em quem visitaria seu velório.

4 de setembro de 2010

A Vaca

Ela era chata. Sabia ser chata, como ninguém. Ainda tinha alguns inocentes amigos que a engoliam, até o momento que ela resolvesse dar uma bela patada que já afastava as pessoas. Ela dizia ser mulher de opinião. Mas, sinceramente, todo mundo queria que ela explodisse, virasse lenda, quando começava a esboçar suas opiniões, que geralmente era causa de discordância por parte de todos, no entanto, para evitar quaisquer intriga que ela tentava fomentar, as pessoas deixavam quieto. Ai de você se discordasse dela. Ai de você. Você poderia levar um belo murro. Há quem sentisse vergoha alheia só de ouvi-la começar a falar de suas ideias egocêntricas e esquisitinhas. Ela parecia não precisar de ninguém. Que se dane a opinião dos outros, a dela já era bem formada e tolo de quem tentasse contrariar. 

Por baixo de tanta dureza e casca-dura: Um coração.


Incoerente

Ele era homfóbico. Também detestava espelhos.

1 de setembro de 2010

Da Voz da Chuva

Do lado de fora, chovia, uma chuva suja e pesada. Ele exigia muito de si. Todo mundo comentava. Mas ele não achava demais cobrar de si uma vida boa. Talvez se deixasse de lado as preocupações as coisas simplesmente acontecessem. Mas a falta de previsibilidade o mataria. Ele não suportaria. Por outro lado os outros também o cobravam. Tudo bem, não fosse o fato de cobrarem dele tudo o que ele não queria. Que se danem os outros, os planos, os fracassos, os anos,  tempo, decepções. Teve vontade de chorar e jogar tudo pelos ares mas ao mesmo tempo sentia no peito uma vontade de colocar as coisas nos eixos. Alguém lhe ensinara a tentar dormir aquela noite. Respirou fundo, foi relaxando cada músculo, começando no dedinho do pé. Relaxara tudo, seu cérebro funcionava, a mil. Sem muito o que fazer decidira chorar. Seus olhos decidiram por ele. Chorou, deixou a lágrima lavar cada pensamento, cada pressão infundada, as decepções passadas, as decepções à vista, lavou sua auto-cobrança e também todo e qualquer resquício de mágoa. Ficou sozinho, ele, suas lágrimas  e a chuva, que agora caía límpida e calma tentando dizer em cada pingo que caía lentamente: Plin... Ploft... Pron... to... Pass.. sou.. Plin... Ploft... Pron...to... Pass.. sou...

30 de agosto de 2010

Covardia.

Ele segurou no parapeito e deixou que o vento carregasse para a esquerda a lágrima seca que caía de seu olho direito. O céu noturno cheirava a arrependimento tardio e solidão, simultaneamente. Ele mirou uma única estrela que quase se escondia sob as nuvens claras do luar, e refletiu. Pensou na resposta amarga que ouvira, e que não queria e nem precisava receber. Não teria sido tudo fruto de sua fértil imaginação, estava na cara, o outro decidira mudar de opinião e deixá-lo assim, como quem não sabe de nada, nem nunca soube. Covardia. Era a palavra que martelava constantemente em sua cabeça enquanto seus lábios tremiam num choro de criança que seus olhos ameaçavam começar. Não vou chorar. Engoliu o choro num soluço. A vida lhe ensinara a não entregar rosas assim, para qualquer um.Covardia. Por mais que seus olhos soubessem da verdade do outro suas pernas queriam fugir daquilo. Melhor seria nem ter entrado naquilo. Então por que me pediu verdade? A verdade é que você vive de conveniência, e eu me esgotei da sua podridão disfarçada de ingênua intelectualidade. Covardia. Encheu o peito para um berro. Desistiu. Gastou o ar com um choro forte e angustiado. Sentou no chão e teve a sensação de estar sozinho. E estava. Limpou o nariz com o punho e sentiu o cheiro do perfume tão elogiado. Covardia. Elogios covardes. Acreditar era um verbo que insistia em permanecer no seu léxico. Construir sonhos tão grandes em pessoas tão pequenas, já tinha ouvido falar nisso. Aqui o referido verbo falhara. Por que não ouvi quando eu mesmo me alertava? Eu quis. Covarde. Covardia. E tentando se acalmar, adormeceu. Mergulhado em emoções passageiras e perdido na solidão do chão frio. Covardia. E de fato, o era. 

26 de agosto de 2010

25 de agosto de 2010

Boas Novas.

Sentou na calçada que já não tinha mais o mesmo tamanho que antigamente e ficou pensando nas aventuras da infância.

 Bets, esconde-esconde, carrinho de rolimã, bugalha, queimada, três-cortes, pega-pega. Sentiu no peito um misto de saudade e medo pelo que viria. Ficou pensando em como seu pai o tratava. "- Júnior, entra logo moleque, tem que tomar banho". Odiava aquele sentimento de ter que abandonar os amigos da rua e ficar dentro de casa. Com os pés bem encardidos entrava e enrolava no banho brincando com a espuma do xampu. "- Júnior, não sou sócio da Sanepar, não, garoto, apura isso aí!". Alguns dias de frio fingia uma dor de cabeça só para não ir à escola, papai e mamãe trabalhando, vovó fazia pão de casa e ele comia com margarina derretendo e chocolate quente assistindo à "Sessão da Tarde". O pai vez em quando dava uma moeda de cinquenta centavos, era uma real fortuna, dava pra comprar cinco canudos recheados com doce de leite no mercado da vila. Algumas vezes ficava de castigo por bater na irmã ou alguma outra arte, mas geralmente era por bater na irmã. Lembrou-se de quando colocou uma tachinha para a irmã sentar. Foi cruel, mas só se dera conta disso depois de ver a cara de desespero da maninha. 

Quando se deu conta estava rindo sozinho. Viu como era bom tudo aquilo e recebeu o choque da consciência pensando no que viria. Seria muito mais difícil ver tudo isso de cima? Agora seria sua vez de chamar para o banho ou de reclamar que este está demorado. Gelou a barriga, suspirou e aceitou a notícia recente com um sorriso de canto de boca. 

Podridão Escondida.

A coisa mais feia que fazia escondido era cutucar o nariz.

Morte Doce

Tomou um litro de tubaína. Morreu de Diabetes.

Desculpa Drummondiana.

- Ei, você demorou, o que aconteceu?
- É que no caminho tinha uma pedra...

23 de agosto de 2010

Ainda bem.


É pra você. Esse texto só pode ser lido ao som da canção acima...

Ainda sinto seu cheiro. Ainda pego tua mão e quando me vejo, não. Mudo a TV pro seu canal preferido mas você não passa. Você deixou algumas roupas, peças íntimas, que de tão íntimas, não saem de mim. Ainda sinto seu beijo, mordendo um dos meus lábios e arrepiando minha nuca num frio que o teu calor me traz, me trouxe e continua a trazer. E trago. Trago no cigarro a lembrança das tuas fumaças escondidas, e me lembro. Ainda grito teu nome recente no meio da noite. Silencio quando não te vejo, me enjôo quando não sinto teu cheiro, tal ausência me embrulha. Ainda tenho teus presentes numa caixa, embrulhados num papel manteiga, que é pra ver se fica fosco. Ainda tenho dejavus intensos. Segunda-feira, prometi pra mim mesmo, vou parar. E ainda paro. Ainda paro no velho banco branco de madeira e descasco a tinta seca nos finais de tarde frios. Agora eu mesmo estalo meus dedos, mas ainda lembro. Num constante movimento mnemônico me dei conta de que ainda choro, mas ainda sorrio, ainda deito, mas continuo seguindo, ainda calo, no entanto posso falar, ainda teimo, e continuo a teimar. Ainda desisto, contudo existo e ainda existo. Ainda. Ainda bem.

20 de agosto de 2010

Identidade do Poeta.

Sou. Apenas sou. Meus pedaços estão espalhados por aí. Por onde passei e escrevi.

18 de agosto de 2010

Fina Saída

A anorexia tenta se justificar com base na economia:
 "- Tudo culpa desses tempos... épocas de vacas magras..."

Encontro Matemático

Um mais um não é mais dois. Vou somar nossas desavenças e dividir nossa relação, hoje a noite.



Consciência Despreconceituosa

Tudo bem, nunca fui contra macho com macho, mas não mexa comigo, falou?

26 de julho de 2010

Pré-texto.

- Quem você pensa que é? Um merda de nada, um porra-louca que não pensa em mais nada além do seu miserável umbigo. Quer saber? Que se dane sua cara de dó, não tenho pena de você. E não me venha com esses medíocres pedidos de desculpas, não perdôo e ponto final. Que parte não entendeu do "te odeio"? Eu devo não ter me deixado entender mesmo, ou você se faz. Fico com a segunda. Aliás, esse seu descaso me causa náuseas. Olha pra mim, senta aqui que eu ainda não terminei. Fugir sempre foi seu forte, mas hoje é o meu dia e eu vou vomitar tudo o que tá entalado aqui ó. Você pensa que eu nunca sabia de nada. Ledo engano, querido, sou mais esperta que essa minha cara de criada com a vó pode sugerir. E tem mais, quero tudo. Tudo mesmo, não abro mão de nada que é meu. Que fique bem claro que quem lutava aqui era eu. Quem colocou toda essa parafernalha por aqui? Esses móveizinhos, essa decoração demodé que você sugeriu, os quadros, a sugestão de uma vida genial, a porra do futuro, tudo eu, banquei. Talvez se eu não tivesse investido tanto assim... Ah, que se dane o talvez! A merda tá feita. Não quero mais te ver, nem sequer tocar no seu nome, quem me dera poder fazer você sumir num fechar de olhos. Cansei. Meu coração cansou. Falsidade, nunca mais. Adeus.

Ela ajeitou o cabelo no lenço, limpou o estrago da lágrima na maquiagem, respirou fundo e, ainda fitando seus olhos no espelho, pensou: "Hoje eu consigo - Vou falar".
Acendeu um cigarro e saiu rumo à sua ruína.

8 de julho de 2010

Inércia.

Um garoto.
Um dia.
Tarde de sol.
Um acaso.
Outro garoto.
Uma troca de olhares.
Sentimento.
Dois sorrisos.
Um diálogo.
Novo número na agenda do celular.
A noite.
O bistrô.
Duas taças de vinho.
Um cigarro.
Muitas confidências.
Identidade.
A conta.
Uma só carteira.
Uma gentileza de primeiro encontro.
No carro.
O beco escuro.
O beijo.
Um calor no coração.
Duas pessoas.
Uma sorte.
Dois corações.
Um destino.

6 de julho de 2010

Cheiro de Saudade

Ele segurou as mãos trêmulas de Melinda. Sorriu e deu um beijo com gosto de saudade.
- Você vai voltar?
Silenciou e seus olhos marejaram. Pegou o botão de rosa cheirou e deu à ela dizendo:
- O tempo passa, as flores secam, o cheiro fica.
Suspirou.

29 de junho de 2010

Síncope.

Era junho e o frio fazia cócegas em meu coração. A eternidade estava pendurda nos ponteiros do relógio empoeirado e odiado da velha rodoviária. Eu mordia o cachecol e sentia minha saliva congelar na lã acizentada. Tanta poesia só poderia ser paixão. Apesar de nunca tê-lo tocado na vida o sentia dentro de mim, apertando meu peito por dentro como num misto de saudade e ansiedade angustiante. Puxava tanto que sentia nó na garganta, vontade de chorar, e contemplar solitariamente o frio sentado num banco isolado parecendo o garoto mais alternativo do mundo. O barulho do ônibus me acordara. Senti meu corpo enrijecer e minhas pernas trêmulas arrepiarem. Por um momento quis correr mas minhas pernas não teriam toda essa audácia. Me enxerguei com um pouco de vergonha de estar ali. Entrei no meu casulo imaginário maus meu coração num pulo me trouxe para fora e estatelou meus olhos em direção àquela porta. Desce um, outro, mais outro, mais um. Nada. Fechei meus olhos e contei até quatro. Quatro era o nosso número. Quatro amigos em comum, quatro chances perdidas de nos encontrarmos, quatro olhares encontrados, quatro tipos de ansiedade. Quatro segundos. Olhos abertos. Eu não podia acreditar. Era ele. Óculos quadrados, cabelos encaracolados, barba por fazer, jaqueta de couro preta, boina verde-musgo, sorriso esbranquiçado de canto de boca, cachecol vermelho. Quarta vez que o esperava. Vi-o descer, buscar o celular dentro do bolso da jaqueta e encontrá-lo no da calça. Um passo, dois, três e quatro. Boa noite - balbuciara. Passou por mim. Pelo menos conseguira um boa noite. Sim, talvez nosso número fosse o cinco e não o quatro. Da próxima vez, tomara que ele me note. Vou esperar por aqui, mais cinco segundos.

16 de junho de 2010

Resposta.

Perdoem-me. Nem sempre eu tenho palavras.


COM CERTEZA, MEU FILHO AMADO. DEUS SEMPRE VAI CONSERVAR SUAS BOAS AMIZADES E SUA VIDA BELA. FOI PRA ISSO QUE EU TE COLOQUEI NO MUNDO, OU MELHOR ,DEUS TE COLOCOU AQUI. EU NASCI PRA TER VOCE E LUTAR PRO SEU BEM ESTAR, SEU BEM VIVER, SOFRER POR VOCE.AMAR POR VOCE, SORRIR POR VOCE , SORRIR PRA VOCE E SEMPRE, MAS SEMPRE MESMO, QUERER SEU BEM QUERER. AMO-TE .
SUA MÃE
18:26

27 de maio de 2010

Flor, minha flor.

Em homenagem à minha linda amiga: Larissa Bortolli Menezes.
 
Ela notava e anotava. Não no bloco branco de sulfites recortadas em sua mão. Em seus olhos. Seu olhar registrava cada fração de movimento em cada pedaço de segundo. Um olhar penetrante e cheiroso. Cheirava a maresia pincelada de verde. Quando algo lhe agradava,  simplesmente sorria. O canto da boca levemente levantado e um suspiro curto. Fotografava somente tudo. E o mais interessante que é conseguia enxergar cores que nem Almodóvar poderia imaginar. O olhar de uma velha albina, o cheiro dos pés franceses, a beleza dos humanos e até o enjôo dos vinhos baratos. Geralmente a vida é tão corrida, ninguém nota, exceto ela. Ela acreditava herdar tal talento da sinceridade que jamais lhe faltara. Tinha consciência de sua falta de santidade ou até de sanidade mas o coração teimava em bater compassos compreensivos, entendedores e pacificadores. Estar ao lado dela dava um misto de alívio e curiosidade. Curioso era ela não se esforçar para ser tudo aquilo. Aliviante era saber que ela existia e continuaria ali. Um dia emitira um som que ecoaria com a mesma força ,e até com maior intensidade, mesmo a anos-luz de distância. Parecia frase de pensador mas estava mais para uma interjeição. Num abrir de lábios emotivos e sorridentes talhou: "Sou apaixonada pelos humanos". O peso da oração me fez tremer. Em prece, pedi a alguém que cuidasse dela se um dia eu faltasse. Meu desejo era de levá-la ao pequeno B612, de "Le petit prince" e protegê-la numa redoma. Mas logo desistira da ideia pois ela ama a liberdade. Então decidi pegá-la pela mão e mostrar a vastidão do mundo. Foi quando notei a imagem que cintilava no desenho pitoresco da pupila de seus olhos. Uma flor. Era assim que ela via o mundo. Poderia levá-la onde quer que fosse, era isso que veria. Flores. Eu me orgulhara disso. A partir daquele dia encontrei seu nome. Flor, minha flor. Eu te amo.

26 de maio de 2010

Pretérito Imperfeito do Subjetivo.

As coisas tinham envelhecido mas matinham ainda a mesma disposição. A ferrugem da antiga mesinha de ferro ornava com as folhas secas da árvore de uva-da-índia no clima gélido de outono. O sol ardia secando o orvalho que cobria tudo ao redor mas um vento frio cortante penetrava as frestas, uivando. O cercado de arame farpado e madeira velha parecia frágil e impotente. Uma pombinha tentava alimentar seus filhotes que ansiavam pela mãe no ninho aquecido da árvore. Alguém chegava andando sobre os montes de folhas murchas da umidade matinal. Sua face era um misto de rugas e nostalgia mas o olhar era o mesmo. O azul vivo dos seus olhos pintava o céu de poucas nuvens e observava a curiosa lembrança eternizada na cena bucólica. Sentou-se e ficou estático nas lembranças que corriam. Antigamente as outras cadeiras que rodeavam a mesinha tinham seus donos. Tudo tinha acontecido tão rapidamente que ele não imaginava estar ali um dia, sozinho e arrependido. Visualizou os erros do passado e respirou nostalgia. Não era fácil voltar à origem do futuro presente. Pensou em como produziria seu epitáfio e concluiu que havia coisas ainda inacabadas. Esperou ansiosamente avistar alguém chegando. Ilusão. A solidão fora sua escolha e de brinde o arrependimento. Se ele ao menos pudesse... Mas não havia mais se. Resolveu aproveitar cada momento que estaria por vir. O presente encorajara-se e o pretérito construiria o futuro. Levantou-se, olhou para o horizonte e teve a sensação de um parto. A partir daí, recomeçou.

7 de abril de 2010

Sobre o pecado.

Ela fuçava. Intrometia-se na vida dele como quem quer acusar. Tentava explicar tamanho ódio em função do seu gigantesco amor. Dificultava sua vida por encontrar tanta dificuldade na vida daquele que ela pensava possuir. Era só olhar para ela e perceber o quão cansada estava. Tinha trabalhado o tempo todo, sem descanso e não poderia tolerar tamanha traição. O que diriam os outros? Haveria alguém feliz com isso? O fato é que ela já tinha todas as respostas. E sabia que o pecado não era dele, era dela. Sentou no escuro e acendeu um cigarro. Fumaça em ascenção. Olhos vidrados no nada. Decidiu que conversaria com ele. Sentiu um cheiro pastoso de uma morte antiga que havia presenciado. Era o mofo da sala escura penetrando sua memória. Lembrara-se de um amigo antigo que tinha morrido por falta de prevenção. Percebeu que queria poder prevenir seu querido. Mas não da morte. Da vida. Tragou mais uma vez a fumaça amarga. Sentiu uma dor nas costelas e entendeu que a vida é pequena. A maternidade havia feito isso com ela. Ouviu então os passos dele aos poucos chegando mais perto e seus olhos vacilaram em lágrimas. Como cena de novela deixou as lágrimas escorrerem sem piscar. Ele passou pela cozinha e entrou no quarto, trancou a porta. Ela se perguntou se uma chave poderia mesmo trancar o segredo de uma vida toda. Calçou os pés nas chinelas velhas e arrastou. De repende soluçou. Tentou prender a respiração e contar até dez mas não lembrava mais a linearidade dos números. Só conseguia lembrar que antes vinha o dois, depois o um. Mas antes o dois era um, hoje são dois: um e outro. Soluçou de novo. A porta destrancou-se e ela se assustou. Ele passara e dissera algo como um tchau. Ela não respondeu. Viu-se levantando e seguindo-o até o pecado. Chegando lá chorava e tentava silenciar para não ser notada. Viu na cena o fim. E quando ia gritar desesperadamente entendeu que nem tinha se movido, continuava ali, naquela sala, com aquela fumaça, vivendo a vida dele. E ele vivendo, seguiu amando-a. Apenas sentiu no ar o cheiro de dor mas nada podia fazer, ela já tinha decidido. Viveram pecando para sempre, ela por sentir-se traída, e ele por amar.

6 de abril de 2010

Profecia sobre um gigante anão.

Para meu querido e amado gigante anão. Do seu tamanho.

Antes da profecia um histórico. Ele nasceu. Fato indiscutivelmente relevante, imutável. Como muitos por aí nasceu com cinco dedos em cada pé, olhos desconfiados e não estou bem certo se tinha cabelos. Tudo certo por fora. Nada certo por dentro. Sei que tudo estava embaralhado como numa pintura surrealista de Dalí. Coração pelo avesso, cabeça em outro lugar, e um terno que não o servia. Cresceu assim. Como também tinha cérebro foi percebendo sua escondida diferença. Não pôde fazer mais nada a não ser aparentar. O espelho estava de cabeça para baixo. E ele mesmo virava, todos os dias. É claro, havia ajuda da família, dos chegados, dos vizinhos, de muita gente. O espelho era pesado demais, mas que fique bem claro a decisão era dele, já que ele mesmo decidira usar uma venda. Não, ele não era culpado. Tomar decisões nem sempre são escolhas nossas. Nada é nosso, a história e a sociedade já decidiram e aí morou o perigo. No mar perigoso aventurou-se. Beijou, gostou, trepou, amou, reproduziu e pronto. Enfim, viveu. Que ninguém culpe nosso anão aqui. Ninguém é culpado por viver. Aliás, quem seria mais culpado: quem vive ou quem ensina a viver? Enfim, gigante anão estava bem. Bem, nem tanto. O fato é que um dia o espelho começou a pesar e virá-lo estava sendo um trabalho complicado pois exigia brigar consigo, tarefa árdua para quem nasceu para viver. Todos já acreditavam na força do gigante anão e num gesto motor nem checavam mais o pesado espelho. Foi então que um dia nosso anão decidiu fazer menos esforço. Deixou de brigar consigo para aventurar-se nas sensações trêmulas e ridicularmente amedrontantes. Entrou num carro aquele dia. Conheceu alguém e mais alguém, até parar num lugar. Lugar bom. Meio escondido mas bom. Não era culpa dele, convenhamos. Mas perceberam seu tremor e sua gagueira. Investigaram e encontraram por trás de muitas cordas pesadas um espelho em pé e de cabeça para cima. Quiseram matá-lo de culpa. Deus usou seu amor para abandoná-lo. E foi assim que nosso gigante ficou sozinho. As pessoas grandes olhavam-no com ódio e desviavam o olhar. É feio e incomum um anão corajoso. Mas as vezes a coragem precisa ser partilhada. Como numa trança. Três cordas não são só uma. E ele era apenas uma. Uma corda que enforcou-se no teto da solidão. Recebeu um documento escrito por ele mesmo que dizia para deixar de ser corajoso. Não foi culpa dele, mais uma vez. E assinou o documento, com caneta nanquim molhada no sangue do próprio peito. Tarde demais. Quem se enxerga nunca mais esquece quem é de verdade, nem que empenhem esforços mirabolantes para o esqucimento. E assim viveu cego e enxergando, simultaneamente. Percebeu o quanto era gigante sua aparência, mas tatuou na memória sua essência. E gostou. Os envolvidos não gostaram, mas estamos aqui para falar do nosso anão. Bem, depois de muitos seres diferentes caiu na real. E o real é o presente. Pensativo, reflexivo, cheio de questões de arrependimento, foi estudar. Gente letrada diz que entende das coisas, sei não. Sei que serviu para o anão. Ele agigantou-se no conflito da incerteza até chegar aqui. Sinceramente, aconselhei que ele vivesse. Um batido carpe diem, mas que teima em dar certo. Bem... usando de todo meu poder e carinho pediu-me uma profecia. Ela surgiu-me de relance e mais aparentou uma ordem. Não questiono essas coisas. Mas ela é profecia e ordem ao mesmo tempo. Ei-la: VAI SER FELIZ. Ponto final para o seu início. É isso.

Cheirinho de Talco

Havia chegado o grande dia. Me sentia tão ansioso e ao mesmo tempo tão confuso. Sempre esperei e jamais imaginei que aquilo pudesse mesmo se concretizar. Como seriam os seus traços? Será que alguem o olharia e nele encontraria algum traço meu? "A boquinha do papai"... "Teimoso feito você"... O relógio pesava tanto que os ponteiros não ousavam mexer. Somente meu pensamento girava, num fluxo familiarmente estranho. Diante dos olhos o futuro incerto. Como viesse eu o aceitaria, e sabia que não seria meu, seria de mim. Parte de mim. Eu o aceitava mas não sabia se ele me aceitaria. Talvez se eu dedicasse toda minha atenção a ele... Muito cedo para prever. Eu só queria mesmo sentir o momento de escutar o choro desafinado e aflito da vida me presenteando com uma vida. E eu que achava que o mundo era injusto comigo. Voltei para sala onde ainda me encontrava. Notei que não havia me movido. Nem o ponteiro. Escutei um sussrro em meu ouvido me dizendo: "Calma"... Virei-me e abracei-o junto a mim. Claro, fora ele a peça decisiva da minha atitude. Bem ali, na minha frente. Cansado, preocupado, ansioso e angelical. Mirei seus olhos com a certeza da segurança que um fio de medo tentava cortar. Frio na barriga, mãos suando, um beijo. Ele me disse:" -Eu te amo e essa é nossa maior concretização." Eu mal podia acreditar, esfregava os olhos e tentava acordar de um sonho real. Tentava imaginar minha vida com ele e concluía que jamais iria querer viver sem ele. Tudo preparado, seu enxoval, seu quartinho, os brinquedinhos, uma canção de ninar, um beijinho de esquimó. Só faltava ele. Eu tinha nascido para aquele momento, era como se ele estivesse dentro de mim e, na verdade, ele já estava. Como poderia ter desistido daquele momento? Jamais poderia deixar de agradecer à doce sunshine que o gestou para nós. A ela daria todo o carinho merecido, por ter entendido minha necessidade de amar. Aquele ser tão fragilzinho que apareceria em minutos nas mãos daquele moço de branco. Sentei exausto na cadeira fria que me deu um cohque térmico. Adormeci nos braços do meu amor. Acordei com um sonho gemendo. A partir dali, sou feliz. Deus, de fato existe. E tem cheirinho de talco.

Homenagem ao meu.

Para meu sempre Saul Bernar (in memorian)
Não sei bem como aconteceu mas ali estava eu. Parado, imobilizado num instante que parecia congelado no ártico das minhas conclusões sem fundamento. Senti o frio acariciar meu rosto e uma lágrima rolar involuntariamente. Enquanto a lágrima caía eu notei o seu percurso. Como algo que estivesse destinado a chegar ao seu fim que era o nada. Senti então um arrepio desses de confundir as ideias. Refleti sobre a necessidade de estar ali. Seria mesmo preciso? Fui eu mesmo quem escolhera estar ali, e nunca tivera tanta certeza do que queria. E eu queria voltar. Queria sentir o avesso do arrepio, ver a lágrima retomando seu percurso de volta e o vento frio abandonando as carícias no meu rosto num sentido contrário. Foi justamente nesse momento que voltei como quisera outrora. Me vi naquele momento mágico em que meu olhar encontrou o dele. Lembrei de todas as emoções que se misturaram e formaram aquele novo sentimento sem nome. Meu mundo antes daquilo tinha sido um aquecimento. Virei o copo de uísque e sorri levemente com o canto da boca. Fui retribuído e acreditei estar tendo um devaneio. Num impulso impressionantemente magnético me senti puxado a passos lentos até perto daqueles olhos. Minha respiração foi ficando ofegante e senti meu coração subir. Uma adrenalina me tomou deixando minhas mãos trêmulas e suadas encostarem em seu rsoto. Me perguntei por onde ele andava todo esse tempo e o reconheci num passado nunca antes vivido. Nossos corpos pertenceram-se desde sempre. Como num vácuo passei rapidamente por todos os momentos vividos, todas as sensações, desde o gosto do uísque, aos extases volupstuosos, o gosto amargo do café expresso pela manhã fria mas com o coração aquecido, a ansiedade de vê-lo chegar exausto do trabalho, o vapor no banheiro e a ducha quente esfriando o calor dos nossos corpos em atrito, o sabor de hortelã da sua boca, o timbre rouco de seus sussurros e gemidos, o barulho das teclas do computador e sua concentração estampada naqueles óculos quadrados, o poder revigorante do seu abraço apertado, o sabor dos planos e desejos e a sensação do sonho que era só meu. E dele. Numa fração de segundos caminhei lentamente sobre as lembranças tentando freiar compulsivamente para não chegar ali. Foi quando ouvi o estrondo da lágrima se estatelando no chão que não estava mais ali. Olhei para o infinito distante que tinha acabado naquele dia. Perdi as palavras e a salivação. Tentei respirar fundo mas meu corpo reagia. Ele não queria. Eu também não. Abracei-me, então. Recostei-me na parede e deixei-me deslizar. Sentiria sua falta e sua presença. Aqui, em mim, para sempre. Adeus.

26 de fevereiro de 2010

Tenso intenso tempo


No plano cartesiano encontram-se o tempo e a intensidade. Quem os dividiu assim? O acaso se incubiu de fazê-lo para dificultar nossa vida. Quando penso no tempo me perco. O que é? O que foi? Bobagem isso, logo se vê. Medida. Que valor mede a intensidade? Nenhum. Teimam em medí-la com o tempo. No vai-e-vem dos dias estão as experiências. Ou não estão. A falta de experiências também é uma experiência. O relógio marca a quantidade em ponto. Carpe Diem. Por que aproveitar se é o tempo o medidor do fim? O que se torna inesquecível durou necessariamente muito tempo. É o que ditam. Intenso pra você mas não pra mim. Por isso o tempo? Quando se mede o tempo ele fica em câmera lenta. Quando se mede a intensidade ela fica do seu tamanho. Gostoso é sentir. Sensações que não são tão boas assim. As qualidades passam pelo juiz intrapessoal. O problema está nos outros. Porque as sensações e qualidades quando estão nas mãos dos outros nos irritam. Queria poder controlar a situação. A situação controla-me já que eu permito. Sincronia pautada na falta de semelhança. Ainda acredito. E quem concordar comigo, se enganou. Entende? Então escolha. Porque o tempo passa e a intensidade é sua.