7 de abril de 2010

Sobre o pecado.

Ela fuçava. Intrometia-se na vida dele como quem quer acusar. Tentava explicar tamanho ódio em função do seu gigantesco amor. Dificultava sua vida por encontrar tanta dificuldade na vida daquele que ela pensava possuir. Era só olhar para ela e perceber o quão cansada estava. Tinha trabalhado o tempo todo, sem descanso e não poderia tolerar tamanha traição. O que diriam os outros? Haveria alguém feliz com isso? O fato é que ela já tinha todas as respostas. E sabia que o pecado não era dele, era dela. Sentou no escuro e acendeu um cigarro. Fumaça em ascenção. Olhos vidrados no nada. Decidiu que conversaria com ele. Sentiu um cheiro pastoso de uma morte antiga que havia presenciado. Era o mofo da sala escura penetrando sua memória. Lembrara-se de um amigo antigo que tinha morrido por falta de prevenção. Percebeu que queria poder prevenir seu querido. Mas não da morte. Da vida. Tragou mais uma vez a fumaça amarga. Sentiu uma dor nas costelas e entendeu que a vida é pequena. A maternidade havia feito isso com ela. Ouviu então os passos dele aos poucos chegando mais perto e seus olhos vacilaram em lágrimas. Como cena de novela deixou as lágrimas escorrerem sem piscar. Ele passou pela cozinha e entrou no quarto, trancou a porta. Ela se perguntou se uma chave poderia mesmo trancar o segredo de uma vida toda. Calçou os pés nas chinelas velhas e arrastou. De repende soluçou. Tentou prender a respiração e contar até dez mas não lembrava mais a linearidade dos números. Só conseguia lembrar que antes vinha o dois, depois o um. Mas antes o dois era um, hoje são dois: um e outro. Soluçou de novo. A porta destrancou-se e ela se assustou. Ele passara e dissera algo como um tchau. Ela não respondeu. Viu-se levantando e seguindo-o até o pecado. Chegando lá chorava e tentava silenciar para não ser notada. Viu na cena o fim. E quando ia gritar desesperadamente entendeu que nem tinha se movido, continuava ali, naquela sala, com aquela fumaça, vivendo a vida dele. E ele vivendo, seguiu amando-a. Apenas sentiu no ar o cheiro de dor mas nada podia fazer, ela já tinha decidido. Viveram pecando para sempre, ela por sentir-se traída, e ele por amar.

2 comentários:

  1. Amor em dosagem pesada faz mal.
    Se me permite, acredito que ela já aceitou o que tinha para aceitar, mas faz isso de pirraça. Talvez porque queria que as coisas fossem mais fáceis, que o nosso pequeno mundinho não fosse tão cruel...Ela não tem vergonha, é medo.
    Ela quer a felicidade dele, e por isso teme. Teme tanto que dentro de si é atormentada pela mistura de medo-terror-desespero. Esse medo a cega e ela acaba não percebendo que a felicidade dele já é garantida.
    Um dia, a mesma fumaça do cigarro que hoje espalha pela casa certo mal estar, vai selar a compreensão. Ele e ela vão compartilhar juntos do mesmo cigarro, rindo do que não contaram – verbalmente – um para o outro. Sem ressentimentos, sem mágoas. Apenas família.
    Não digo sem pecado, porque o pecado é inerente ao ser humano, seja ele macho, fêmea, claro ou escuro, rico ou pobre.

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