15 de outubro de 2011

Sintonia

Ele andava só.
 Ele também.
Ele não acreditava mais nisso de paixão, amor.
 Ele também não.
Ele teve sorte.
 Ele também.
Ele não acreditou que aquela pessoa pudesse o notar.
 Ele também não.
Ele decidiu.
 Ele também. (Embora tenha hesitado)
Ele se abriu, se declarou.
 Ele também.
Ele corou.
 Ele também.
Ele ficou feliz.
 Ele também.
Ele agora é dele.
 E ele também.

11 de setembro de 2011

4 de setembro de 2011

Pra lembrar.

- Como a gente mudou em tão pouco tempo, não acha?
- É, eu acho.
- Esses dias te vi passando pela rua, tá bonito. (...) Tá, confesso, fiquei com ciúmes.
- (...)
- Você tá feliz?
- Eu to bem.
- Fico feliz por você estar bem, vocês estarem bem.
- É, ainda bem, e você?
- To na mesma. Ainda vou ao teatro todo sábado, só não te vi mais por lá...
- Aham, ele não gosta muito de teatro...
- Pena, você gostava tanto...
- Ainda gosto.
- Aparece amanhã, tem peça nova.
- Vou tentar.
- Ai, desculpa, ele não gosta muito de mim, não é?
- Ele sente ciúmes. Sabe? Passado...
- Não, eu entendo.
- Ele tá falando em União Estável...
- Ah sim... e o que você pensa sobre isso?
- Não quero isso. Nunca precisei antes, mas ele insiste no protocolo.
- É, eu também não quereria...
- Mas você sempre falou no sonho do casamento quando estávamos juntos.
- Talvez tenha mudado de ideia agora.
- Entendi.
- O que você entendeu?
- Não, nada, só isso de mudar de ideia mesmo.
- Mais nada?
- Não, por que?
- Por nada...
- Diz...
- Desculpa, tá ficando tarde, ele já vai chegar...
- Tudo bem. De qualquer forma, te ligo às vezes, posso?
- Liga sim. Só não sei se sempre poderei atender... Nunca se sabe quando ele estará por perto.
- Tudo bem. Senti saudades.
- É, eu também... Mas é melhor desligarmos.
- Um beijo.
- Outro.

Um permaneceu deitado, pensando no que lhe passara pela vida e que deixara escapar.
Outro levantou-se para abrir a porta, o namorado chegara.


















31 de agosto de 2011

Do primeiro.

Foram três encontros até que chegasse a coragem. Digamos que ela, a coragem, nascera pequenininha, tímida. Mas ela nasceu. Como assim? Nunca beijou? Me sentia pressionado pelos outros. Não, não era mais adolescente. Ou pelo menos não me considerava mais assim. Tinha 18. Mas aquilo me fazia voltar ao que eu chamava adolescência. Acho que este sentimento é o que define adolescência. Senti meu coração na boca, borboletas não voando, mas me carregando pelo estômago. E o medo? Daria um livro todo à parte. Dia marcado, hora marcada, vou caminhando lentamente ao local. Ensaiava o que dizer, e apagava tudo no mesmo instante. Pensava em parar, voltar atrás, mas as vozes dentro de mim me pressionavam. Foram três encontros, o primeiro um fiasco, o segundo metade de fiasco, o terceiro talvez não chegasse a um terço, mas mesmo assim, fiasco. Palavras de lado, mirei a boca. Senti vontade de senti-la. Me aproximei. Não era mais uma pessoa à minha frente, era uma boca, a que me daria o meu primeiro beijo. Como quem coloca o dedo em alguma matéria nunca antes conhecida na face da Terra, encostei meus lábios trêmulos naqueles lábios mais seguros que os meus. O som de Sabdy e Júnior do rádio e aquele halls não foram o que eu senti. Foi doce, foi macio, foi estranho, foi novo. Mas foi. Depois de me despedir, não pensei na marca que poderia ter ficado nos meus lábios, agora inchados. Mas na marca que ficara ardendo, me esquentando, no meu coração. 

27 de agosto de 2011

Da efemeridade

Levantou feliz. Há noites não dormia assim. A chuva na janela embalara a noite inteira de sono, e uma brisa risonha tocava-lhe a face tirando dele um sorriso gratuito. Sairia para o trabalho às 07:45, mas despertara cedinho, madrugadinha, de um descanso mais que merecido. Pensou em colocar uma música para embalar o feitio do café, mas haveria som mais perfeito que a chuva leve e os passarinhos anunciando o tímido sol por trás das nuvens? Vestiu a pantufa e, ainda de pijama, coou o café. Sentou na cama. Levou um tempo pensando na efemeridade da vida quando rapidinho terminou o pão de queijo. Há muito tempo a inspiração não batia-lhe à porta. Lera Adélia Prado e invejara-a nos poemas que ela havia escrito falando sobre sua falta de inspiração. Até a falta de inspiração a inspirou. Olhou a chuva novamente e lembrou da infância, do tempo de banho de chuva e algazarra na casa da avó. Passeou pelos esconde-esconde, pega-pega, alerta, rolimãs, queimada, gude. Lembrou exatamente de como era sua escola, sua preocupação com a tarefa de casa, sua vitória do grêmio estudantil. As aulas de informática e de inglês que nunca reclamara para ir. A primeira paixão, o primeiro fogo no coração, ainda pequeno, quando pensava não saber lidar com aquela situação. Então o presente desfocou sua visão e percebera que não tinha aprendido a lidar como situações como aquelas da infância. Viver era mesmo estranho. O relógio digital ganhou vida, tirando-o a concentração do sonho acordado. Hora de ir. Levantou-se, trocou-se. Antes de sair, parou à porta e olhou cuidadosamente o que tinha construído ao longo de sua vida. Aquilo, sem dúvidas, era seu. Sentiu um amargor na boca, uma vontade de dividir tudo aquilo com alguém, e decidiu partir. Não há por quê chorar. Fechou a porta e partiu. Não conseguiu dividir com alguém tudo o que conseguira. Nem consigo mesmo. Não voltou mais ao seu apartamento. E nem ao trabalho. Morrera a três tiros, vítima de um assalto. Em sua mão, uma carta, que o destinatário não veria, e o sangue no chão lavava todo sonho mortal.

1 de agosto de 2011

Proust.

O prato principal era Proust. De "Em busca do tempo perdido" a "Sodoma e Gomorra" tudo lhe apetecia. Vontade insana de deixar o mundo e mergulhar no escritor e, simultaneamente,  imenso medo de esgotar suas obras e tudo o que tratava delas. Queria Proust. Desejava Proust. Lambia cada palavra com o desejo de sentir o gosto mais específico de cada uma. Sentia ciúmes de Proust. Sentia-se traído só de pensar que a cada leitura de sujeitos diferentes, pensamentos que nunca seriam expostos nos papéis passariam pelas mentes e das quais ele jamais teria conhecimento. Precisava pensar que era somente ele. E Proust. Talvez fosse a identidade enorme. Servira o exército também, mesmo com problemas de saúde, por um ano. Talvez também fosse incompreendido em vida, como Proust. Seria a ligação enorme com a mãe que o aproximava tanto do que Proust era? Eram tantas identidades. A homossexualidade era comum, também. Os últimos cinco anos mudaram sua vida, assim como os cinco grandes anos transformadores da vida do autor. E o que ele tinha? Apenas livros, e mais livros, palavras que explicavam quem ele era, e quem os outros o julgavam ser. Se ao menos pudesse se encontrar com ele, estaria disposto a cortar seus pulsos e chegar lá. Mas não sabia se a morte o levaria a isso, na incerteza, melhor aproveitar cada segundo, com Proust. No espelho, encontrou alguém perdido. Poderia ser ele Proust, reencarnado, não sabia mais no que acreditar. Sabia que naquele dia, seria morto por ele mesmo, por sua boca. Seis páginas o separavam do fim.

3 de julho de 2011

Quando fechar a porta dói.

O fato é que eu me apego às paredes. De alguma forma elas acompanham todos meus momentos, guardam meus segredos e silenciam, sempre. Sentei no chão frio do quarto agora nu, e um filme projetou-se na parede. Minha primeira noite de sexo, a fúria de uma briga acalmada nas paredes do quarto, um desabafo com a amiga e porcarias para comer, os sonhos esquisitos, o sussurrar no celular, a nudez desenvergonhada e os textos escritos, compostos em parceria com aquele lugar. Tudo encaixotado. Em papelões quadrados se espremiam cenas de anos. Algumas coisas descartadas, alguns objetos que significam muito, só para mim. Uma fita VHS  mal cuidada com cenas da minha infância me faz pensar no zelo com o passado. Ah, cada memória, cada precioso momento cristalizado em objetos, fotos, trapos e bugigangas, até quando teriam valor? Reza o ditado que só se dá valor quando se perde. Nem sempre. Não tivesse valorizado tudo aquilo, não me custaria muito deixar aquelas paredes já despidas. Interrompo o filme para pensar naqueles que já ocuparam aquele mesmo lugar. Onde estariam? Sentiam ciúmes daquele lugar que já tinha se tornado meu? Pode ser que sim, e pode ser por isso que tenham pedido a casa de volta. Olho novamente para a parede e agora se projeta o futuro. O novo lugar dos meus objetos, dos meus momentos, das minhas cenas, dos meus segredos. Presto minha última homenagem a este lugar que me viu entrar um, e sair outro. Quem sabe um dia, por ironia do destino, ou vontade mesmo, eu volte a te encontrar? Peço a benção ao destino, a estas novas paredes, sejam o que eu viver. Levanto vagarosamente, fecho a porta atrás de mim, com lágrimas no coração.

9 de junho de 2011

Do desejo de destino.

O inverno o esquentava por dentro. Seus passos crus inauguravam solitários a manhã gelada. Passava pelas vitrines fechadas e prestava atenção nos pássaros que pousavam na arquitetura velha e pichada da cena urbana. Suas roupas combinavam com o pálido céu nublado e seus óculos quadrados carregavam olhos inquietos.
O inverno a enfurecia. Seus passos cozidos repetiam o caminho da multidão que até a deixava com calor. As lojas abriam-se e os pássaros eram espantados dos prédios modernos e limpos da rua cheia de árvores. Ela odiava combinar com o dia, destoava sempre que possível, havia certa rebeldia no seu pisar, as lentes negras demonstravam.
Ele contornava as ruas, cosendo-as, parecia alguém que nunca seguia o mesmo caminho, mas ele conhecia cada esquina virada, cada prédio antigo, gostava de respirar três vezes na rua do bar do Sinvaldo, não considerava transtorno obsessivo compulsivo, era hábito. Levava um mp3, na vitrola volume médio, rock alternativo e pop meloso. Na mochila pesada o notebook, o desodorante, um caderno do ano passado, umas revistas que nunca seriam lidas e meio pacote de chips, murcho.
Ela seguia retilineamente, sem nem virar a cabeça, com passos suaves de quem passeia pela primeira vez pelo local, os prédios passavam por ela e faziam questão de refletir muito bem sua silhueta calma e vagarosa. Gostava de pisar nos pisos pretos, pulando os brancos, e queria procurar um psiquiatra por isso. No Ipod, um bom samba, bossa e MPB. Sua bolsa leve não carregava muitas coisas, a não ser a máquina fotográfica polaroid que amassava algumas fotos estranhas e uma bala de café.
Ele pegou a Consolação e começou a subir. Ela virou a Paulista, e desceu a Consolação. Ele viu uma moça estranha vindo de encontro, distraída. Ela andava pensando nas provas finais. Ele percebeu que ela se aproximava muito rápido. Ela acordou da distração com uma trombada. Ele sorriu e pediu desculpas. Ela disse que não tinha sido nada.
Nunca mais trombaram, e também nunca mais se esqueceram.