Ela olhava para os lados sem mover a cabeça. Sorria de canto de boca e pisava nas pequenas poças d'água deixadas pela chuva forte. Agora chuviscava bem fininho, o bastante para ela carregar aquele guarda-chuva vermelho. Ela trazia no coração um misto de nostalgia com vontade enorme de rir, sentimento novo então. Mesmo passando por aquelas ruas vazias, frias e cinzas, sentia certo calor no peito. Andar fazia com que ela descansasse. O dia a cansava, a vida não lhe trouxera mais perspectivas de algum tempo para cá. Só não entendia muito bem essa vontade de rir que lhe tomava as tardes de domingo. Também nunca se atrevera a rir, não. Respeitava muito aquilo de viver sempre séria. O guarda-chuva era o escudo no qual ela conseguia soltar leves risinhos, que lhe limpavam a alma. Lembrava ali da semana toda, e percebia que todos os dias eram iguais, talvez fosse disso a nostalgia, dos dias diferentes. As ruas já iam se acabando mas a vontade de andar e andar lhe era crescente. Parou por um segundo, sentou, fechou os olhos e continuou caminhando, onde iria parar ainda não sabia, mas iria andar, até que o riso lhe fluisse naturalmente e a saudade lhe fosse esgotada.
24 de abril de 2011
19 de abril de 2011
O que é nosso.
- Escuta aqui que isso é pra você. Eu ainda te amo. Eu te amo hoje mais que ontem. Agora mais que o eu te amo da frase anterior. Hoje você tem medo do meu amor. Você não quer mais entregar-se ao que o seu coração sente, eu sei. A razão manda que você me esqueça de vez, beije do outro beijo e abrace do outro abraço. Mas seu coração sabe que o beijo não é meu e que o meu abraço está aqui esperando o seu. Eu estou te falando que eu quero. Mais que tudo eu te quero agora, quero provar que dou valor a você, ao seu amor, ao seu abraço. Já não aguento a agonia de estar assim tão longe por tanto tempo. Eu não quero, e me escuta, eu não vou te perder, entendeu? Não vou. Eu vou te buscar, vou fugir com você, vou te desaprisionar desse castelinho maldito que te coloca tão longe de mim. Porque o meu amor não é meu. É nosso. E nós temos o direito de vivê-lo, nós vamos fazer isso. Você me escuta? Hei... Me escuta... Que já não aguento mais gritar.
18 de abril de 2011
Do calor.
Quando o clima está quente fico muito bem sozinho. O calor é alegre, sorridente, de risadas e samba. Mas é só o frio chegar para eu querer reencontrar um calor. Sim, um calor. Específico. Não gosto muito de sentir saudade. Existe a saudade boa, que é aquela que a gente sabe que vai matar. Existe a saudade ruim, que não poderá mais ser curada. Mas a que mais me incomoda é aquela incerta, que você não sabe se conseguirá matar ou não. A vontade era matar mesmo. Esquartejar a saudade e queimá-la. E quando chega o frio encontro a saudade que tentava esconder numa xícara de chá que embaraça meus óculos, sentado no sofá, debaixo da coberta xadrez, assistindo a um belo drama francês. Ela queima meu coração assim como o chá quando o bebo no primeiro gole. Fecho os olhos e te imagino ao meu lado, dividindo o chá, a coberta, o filme e o calor. E como a saudade queima, sinto uma vontade de calor, mas tudo o que consigo é chorar. Choro por aquele novembro tão feliz, que ter seu toque era comum. Dia desses vi suas fotos, nossas fotos. Deu vontade de voltar, mas essa vontade ja me é tão presente que falar dela é cliché. Em uma dessas fotos estamos nos beijando. Fomos um só aquele dia, e foi bom. Agora é melhor eu parar de lembrar, porque a tarde vem caindo, e esse frio já ai congelando meu coração, fico na esperança do calor, desse calor único, que jamais esquecerei.
13 de abril de 2011
Sendo.
Sou tesão. Quando te vejo atravessar o quarto nua, despida de vergonha.
Sou calor. Quando beijo teus pés frios e aperto teus seios rígidos.
Sou paixão. Quando sinto teu perfume exalando sedução.
Sou pecado. Quando mordo as maçãs da tua face e provo sem mácula do teu fruto.
Sou vermelho. Quando ofego em teu ouvido e acelero.
Sou saliva. Quando beijo e não paro de beijar.
Sou alívio. Quando gozo do teu gozo tão sublime.
Sou você. Quando entro no teu corpo e não quero mais sair.
Sou nós dois. Quando te lembro com saudade e vontade de te ter.
Sou sozinho. Quando olho para o lado, e ali não é você.
Sou calor. Quando beijo teus pés frios e aperto teus seios rígidos.
Sou paixão. Quando sinto teu perfume exalando sedução.
Sou pecado. Quando mordo as maçãs da tua face e provo sem mácula do teu fruto.
Sou vermelho. Quando ofego em teu ouvido e acelero.
Sou saliva. Quando beijo e não paro de beijar.
Sou alívio. Quando gozo do teu gozo tão sublime.
Sou você. Quando entro no teu corpo e não quero mais sair.
Sou nós dois. Quando te lembro com saudade e vontade de te ter.
Sou sozinho. Quando olho para o lado, e ali não é você.
29 de março de 2011
Gostosinho.
Fazia tempo que não conversava com ele na internet. Digitei um oi, ele, sempre atento, logo respondeu. Até aqui tudo igual. As mesmas conversas, as mesmas ideias. Não que significasse monotonia, pelo contrário, era sempre uma delícia conversar com ele. Nos conhecíamos há muito tempo, somente pelas telas frias dos computadores, mas de alguma forma o coração sempre aqueceu algo entre nós. Decidi pedir que abrissemos nossas câmeras. Não sei ao certo. Ele estava lá, como eu sempre conhecia, pouca diferença. Mas o que mudara? Quando me dei conta era o meu coração que tinha mudado. Passou a esquentar de um jeito estranho que peguei medo e desconfiei. Dizem que quando acontece algo pelas bandas do coração a visão fica diferente. Eu o enxergava diferente. Era ele, eu sabia, mas não era mais aquele menininho que outrora conhecera. Tentei trocar de páginas, entrei em outras, parei de vê-lo por uns instantes. Levantei, busquei água, respirei. Tornei a vê-lo. Sim, algo estava diferente. Em mim. Nele. Sim. Talvez fosse isso. Eu gaguejei um 'nós' em pensamento. Segurei. Fui prestando atenção nas coisas que me dizia como quem olha com zoom para a vida de alguém. As surpresas foram tomando dimensões que extrapolavam a tela entravam pelos olhos e tomavam conta dos dedos, do sorriso, do pensar. Quando não mais pude me conter, despejei. Sem freio me esgotei da verdade que me possuia freneticamente. Olhei seu rostinho me olhando surpreso, de quem quer rir mas se segura. Não me recordo muito bem das respostas que me deu. Talvez não queira recordar. Sei que agora sinto um tic tac diferente. Esperando o tempo passar, nessas batidas que agora meu peito teima em atrasar.
26 de março de 2011
Lelêu.
É engraçado e estranho a forma como os fatos vão tomando conta do espaço da nossa história. Um dia, algum tempo atrás, usei um chat que nunca tinha usado. Foi lá que por brincadeira ou aventura ou qualquer coisa dessas do destino encontrei um indivíduo que dançou um arrocha pela webcam. Parei por aqui (rsrsrs). O fato é que não sabia o valor que um dia esse indivíduo hilário teria na minha história. Sem querer melar mais ainda, resumirei. Ele é insubstituível. E hoje, a vida me deu mais um mimo. Este texto que ele escreveu me fez chorar de verdade, porque traduz o que eu sinto também. Aqui vai:
"Nossas vidas são uma risada forçada de quem nos colocou nesse mundo. Nunca se cruzam, por mais próximas que estejam. Viajamos lado a lado em lados opostos, sem mesmo poder disputar ou divir territórios. Convivemos de uma forma diferente. Compartilhamos felicidade à distância... Que ao menos as tristezas também fiquem assim, bem distantes. É dessa forma que somos e não podemos mudar, porque água e vinho quando se misturam perdem a essência, deixam de lado o sabor que possuem, o sabor que faz com que sejam tão especiais. Somos pares, complementares de tão ímpares que sempre fomos. Para sempre dois, sendo um mais um, com outro tanto no meio e nada, por maior que seja a vontade, nada no final das contas."
Leleu. Valeu por fazer-se felicidade nessa minha loucura que costumo chamar de vida.
24 de março de 2011
Dos resquícios.
Entrou em casa, viu as roupas jogadas no chão, os móveis fora do lugar e o trabalho que teria para reorganizar. Lembrou de quando aquele espaço era mais organizado e preenchido, lugares ocupados, taças nas mãos, roupas nos corpos, toca-discos funcionando e romance no ar. Foi bem ali que fora apresentado àquele que hoje era apenas um espaço. Serviu-se de um gole de uísque e colocou qualquer música melancólica que encontrara pela frente. Esticou as pernas sobre tudo que estava sobre a mesinha de centro, acendeu um cigarro e tragou demoradamente. De onde estava avistou um último resquício de passado. Um porta-retrato ostentava uma felicidade brilhante que ofuscava mesmo dali de não tão perto. Aquela felicidade entrava pela barriga, tomava conta dos nervos, lacrimejava os olhos, e o fazia perder a concentração na respiração a ponto de engasgar com a fumaça do cigarro. Não haveria respostas para a questão sobre o que aquilo ainda faria ali. Tampouco haveria respostas para tantas questões que aquele último objeto pesado levantava. Afrouxou o nó da gravata tentando desobstruir suas vias respiratórias, tirou os sapatos com os pés e apoiou a mão do uísque no encosto da poltrona, derrubando do líquido em si e na poltrona. Queria naquele momento destruir aquele objeto, mas sabia que destruí-lo não tiraria dele as lembranças, a vida, o cheiro, o olhar, o tato, o som da voz, o afago noturno, os sussurros à meia-luz, os encontros escondidos, os urros do sexo, o calor no coração, e a vontade de ser um, só um com ele. Baixou o som, apagou o cigarro, e num esforço tremendo levantou-se. A passos lentos aproximou-se daquilo que o destruía. Apenas deitou-o de cara para a estante, e virou-se, rumo à sacada.
23 de março de 2011
Quero sim.
Quero um mundo colorido. Eu quero. Não interessa se é sonho distante. Quero uma vida na França. Quero um amor desses do Tumblr. Quero camisas xadrez e calças no chão. Quero um álbum de fotos aberto. Quero poder falar o que eu quero. Quero escutar o que eu quero. Quero dançar. Quero um par. Mesmo que seja difícil aprender a dançar do lado da menina no par. Quero sim. Quero uma casa bonita. Do jeito que eu planejar. Quero viajar. Quero uma máquina para registrar. Quero compor uma música para o meu amor. Quero um beijo no inverno. Quero andar de mãos dadas na beira do lago com ele. Quero sorrir de manhã. Quero levar café na cama para o meu amor. Quero um café-da-tarde em algum bistrô em Paris, de mãos dadas com ele. Quero deixar dois pares de rastros na areia. Quero assistir a um filme francês. Quero descansar no colo dele depois de um dia de trabalho. Quero ser gay. Quero que o mundo veja. Quero ser feliz. E espero que um dia seja.
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